A (i)legalidade está na mãe

 

“Artistas conceituais são mais propriamente místicos do que racionalistas.

Eles chegam a conclusões que a lógica não pode alcançar.”

Sol LeWitt

Escolher a própria intimidade como estímulo poético para conceber um trabalho de arte é um caminho de risco. Mas um dos aspectos mais interessantes da série “Reconhecimento”, de Fabiola Chiminazzo, é nos fazer perceber que não se trata de escolher. Seu cotidiano de mulher de 39 anos, casada e com filhos, era um ponto de partida inevitável. E isso nos elucida que o espaço (físico ou psicológico) onde vive o artista, seu campo de batalha existencial, é quase co-autor do trabalho.

         A série “Reconhecimento” lida com a memória, uma vez que tenta apreender momentos corriqueiros e sensações da vida íntima por meio das fotos. O que concebemos por “corriqueiro” ou “banal” é provisório, é como se a memória tivesse uma autonomia, pois um momento que passa por banal pode revelar-se, com o tempo, um momento especial e decisivo. Chiminazzo então escreve declarações nessas fotos e leva-as num cartório para autenticá-las. Essa operação conceitual gera algumas leituras estimulantes.

         Será que se trata de um gesto irônico que zomba do excesso de leis e de ordens as quais estamos todos submetidos? Na sociedade de controle sobra pouco espaço para subjetividade e poesia. A função do cartório é questionada, pois é pequena de mais diante do que é a função de ser mãe, por exemplo. Sem dúvida, a potência do trabalho reside em seu processo: no seu aspecto relacional de confrontar a rotina burocrática e modorrenta do cartório, sua previsibilidade viciosa. Afinal, o cúmulo da subversão é ser subversivo dentro da lei.

         Há também outros documentos (ou seriam anti-documentos?) que são intrigantes, como é o caso de “Intenção” — onde o suporte para a declaração de Chiminazzo é um mapa de navegação de aviões e a autenticação do cartório se homogeneíza com o rigor do mapa — e do “A Cópia” em que o reconhecimento de firma fica explicitamente inutilizado por conta da redundância do texto. Depois ela ainda tira uma cópia autenticada desse trabalho: uma cópia é uma cópia é uma cópia. Aqui, Chiminazzo está para entrar numa espécie de buraco do coelho da Alice, onde já se engendraram Duchamp¹, Rauschenberg², Michael Mandiberg³.

Todo artista intuitivamente se incumbe de um empreendimento impossível. Chiminazzo não hesita em expor um pouco da sua privacidade e importunar tabeliões burocratas para tentar dar conta do seu empreendimento: fazer emergir o extra-pessoal do pessoal.

A autobiografia pode ser uma fonte abundante para a arte, mas a matéria-prima lá contida demanda um árduo processo de refinamento.

LUCAS REHNMAN

Notas de Rodapé:

¹“Um pouco abaixo do Letreiro de Cima, na extrema esquerda, aparece a Noiva. Duchamp disse que é a sombra em duas dimensões de um objeto de três dimensões que, por sua vez, é a projeção de um objeto (desconhecido) de quatro dimensões: a sombra, a cópia de uma cópia de uma Idéia.” OCTAVIO PAZ, Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza, São Paulo, Ed. Perspectiva, 1977.

² Pinturas Factum I e Factum II (ambas de 1957), de Robert Rauschenberg.

³“Em After Sherrie Levine (2001), o artista Michael Mandiberg leva a apropriação a um extremo quase absurdo. Em 1979, Sherrie Levine fotografou as fotografias clássicas de Walker Evans. Mandiberg digitalizou as imagens de um catálogo que expunha as fotografias do trabalho de Evans e colocou-as na Net, em AfterSherrieLevine.com. Como parte de uma ‘estratégia explícita de criar um objeto físico com valor cultural, mas pouco ou nenhum valor econômico’, Mandiberg convidou os visitantes a imprimir as imagens juntamente com certificados de autenticidade e instruções específicas de emolduramento.” MARK TRIBE/REENA JANA, New Media Art, Taschen.