Tempos, valores, materiais e poéticas

Depois de certo tempo a observá-lo, compreende-se, por fim, de que se trata. Antes mesmo da visão, solicita ao apressado observador contemporâneo certo tempo de convivência. É assim que, ultrapassada a superfície da imagem, encontramo-nos com o trabalho de Fabíola Chiminazzo. Experiência que se assemelha ao encontro com aquele alguém que nos interpela sobre o que há para se ver quando nos voltamos para nós mesmos.

Nesta série de investigações recentes a artista dialoga com algumas das estruturas conceituais que organizam o campo das Artes Visuais na contemporaneidade. Demonstra-se interessada em ressaltar a resiliência dos elementos de reordenação de tempos, valores, materiais e construções poéticas que permeiam a Arte de hoje, tornadas visíveis nesse seu trajeto.

Por meio de novas combinações de imagens e suportes descortinamos suas eleições por trechos e ideias descritos nas passagens do mundo antigo aqui evocado persistentemente nos desenhos, objetos e instalação construídos para essa exposição. Contudo, distante das promessas de revelação que a conduziriam para a esfera mística ou religiosa, a artista mantém-se focada no estranhamento desse lugar ocupado pela temporalidade dos aforismos antigos e sua validade no momento presente.

Tal qual nos sugerem, por caminhos distintos, Anne Cauquelin e Susanne Lacy, Fabíola opera uma práxis que a vincula a outros campos do conhecimento vizinhos da arte, sem se esquecer dos termos a serem adotados para essa combinação. Dito de outra forma é a partir da arte que ela propõe a perspectiva de estranhamento e pertencimento do mundo que nos cerca, atenta à temporalidade e aos termos que esse Hoje nos apresenta como Arte.

Por isso, talvez, reforcem-se as derivações entre o original e a cópia, entre o industrial e a artesania equilibrados, a preço de ouro, nesse conjunto de trabalhos. A construção dos desenhos com o artifício de uma ponta seca pressionada sobre imagens de figuras bíblicas replicadas de reproduções impressas indica o caminho da cegueira a ser vencida, primeiramente pela própria artista, depois pelos seus interlocutores a quem é apresentado apenas o desenho decalcado. Do mesmo modo, a acuidade das frases escolhidas e editadas dos discursos de Sêneca, que compõem a instalação com 490 caixas de arquivo de papelão, é diametralmente oposta à constituição desse volume formado pela desordem, pelo amontoamento e pela sorte dos empilhamentos. O percurso sugerido ao visitante indica o escape desse amontoado levando-o a aproximar-se dos desenhos. Assim, sustentada pelas considerações de Agamben, a chave da distância é novamente o elemento que conduz o enevoado do presente contemporâneo e que dá força ao projeto todo: ao mesmo tempo em que a sutileza das vozes que narram os aforismos, mais bem digeridos quando repetidos em tom de sussurro, nos chamam para perto, ,a volumetria desordenada do empilhamento de caixas-arquivo nos pede recuo.

Os materiais empregados por Chiminazzo nesta série de trabalhos atestam um jogo de forças travado entre o ver e o presenciar. Sua materialidade é quase sempre evocativa de um tempo saudoso, intermediado por novas referências atribuídas pela artista durante o caminho dessas eleições que constroem sua poética pessoal. As caixas-arquivo em papelão cru são todas carimbadas. Sobre folhas envelhecidas de papel milimetrado acomodam-se desenhos de cor violeta intenso, produzidos tanto por cópias heliográficas quanto mimeografadas. Ao lado das figuras humanas nelas decalcadas encontram-se diferentes gráficos oftalmológicos e frases datilografadas que tornam complexa qualquer tentativa de determinar as distintas origens da informação visual que constitui esse trabalho final. Tarefa essa logo dispensada pela estratégica falta de regularidade desses múltiplos dados, pela dificuldade de legibilidade que os conduzem, por sua potência plástica, ao território do Desenho. Portanto, esse conjunto de objetos e valores assim reunidos, legitima-se pelo campo da Arte, de onde nos interpelam e nos assistem.  

Sylvia Furegatti